A forma como nos aproximamos de uma pessoa com demência pode fazer toda a diferença entre um momento de tranquilidade ou de constrangimento.
Um dos erros mais comuns é a infantilização. Embora a pessoa possa ter perdido capacidades cognitivas, continua a ser um adulto, com uma história de vida, dignidade e emoções. Muitas pessoas pensam que os idosos voltam a ser crianças, e automaticamente conversam com os utentes como se fossem crianças, usar um tom excessivamente paternalista ou tratar o idoso como um bebé. E isso pode fazê-lo sentir-se desrespeitado, mesmo que não consiga expressá-lo por palavras.
E porque geralmente fazemos a comparação com crianças?
A demência provoca uma perda progressiva das funções cerebrais. Áreas responsáveis pela memória, linguagem, raciocínio, planeamento, controlo das emoções e autonomia deixam de funcionar normalmente,.
Á medida que a doença avança, a pessoa pode tornar-se dependente para tarefas básicas, ter dificuldade em comunicar, precisar de ajuda para comer, vestir-se ou ir á casa de banho. Estas limitações podem lembrar as de uma criança pequena.
No entanto, o cérebro não está a regressar ao desenvolvimento infantil. Não há um “retrocesso” para uma fase da infância. Trata-se de um processo de degeneração cerebral, e não de um desenvolvimento ao contrário.
Outra diferença é que uma criança está a desenvolver novas capacidades e o seu cérebro está a criar ligações. Já uma pessoa com demência está a perder capacidades que adquiriu ao longo da vida devido á lesão e morte de neurónios.
Outro erro comum é acreditar que é preciso “puxar” constantemente pela pessoa. Falar muito alto, fazer várias perguntas seguidas, insistir para que responda ou realizar movimentos rápidos e cheios de energia pode ser assustador para quem vive com demência. O cérebro tem dificuldade em processar tantos estímulos e, em vez de motivação, o resultado pode ser ansiedade, confusão, agitação ou até comportamentos de resistência. E as pessoas com demência não precisam sentir pressão. Precisam sentir segurança.
As abordagens mais eficazes são simples: aproximar-se calmamente, estabelecer contacto visual, falar devagar, usar frases curtas e dar tempo para que a informação seja compreendida. Um sorriso genuíno, uma voz e presença serena, toque respeitoso (quando bem aceite) e um ambiente tranquilo transmitem confiança e reduzem o medo.
Porque há uma coisa que temos que entender: a pessoa com demência está a perder capacidades, está a perder autonomia. Por vezes nem reconhecem os familiares e sentem que estão com pessoa estranhas. Eles sentem medo, confusão. Eles precisam uma presença segura e que não lhes faça mal.
Muitas vezes, o objetivo não é fazer a pessoa compreender o nosso mundo, mas entrar, por alguns momentos, no mundo dela.
Na demência, nem sempre a melhor intervenção é fazer mais. Muitas vezes, é fazer menos. Mas com mais calma, empatia e mais respeito.
