Acamada, cuidada, mas esquecida por dentro

Um dia, como qualquer outro, estava a prestar cuidados a uma senhora, em estado avançado de Alzheimer e acamada.

Cuidadosamente estava a trocar a fralda da senhora. Algo normal na minha profissão. Mas, parei por uns instantes e olhei para o seu rosto. Estava com a cara ligeiramente inclinada em direção á janela. Um olhar vazio, um olhar triste. Como que estivesse a pensar: “Faz o que tens a fazer, já estou habituada. Afinal, não posso fazer mais nada, não tenho mais autonomia e dependo de ti. Faz o teu trabalho para eu voltar a dormir.”

Algo despertou em mim naquele momento. Nós profissionais de saúde e os familiares cuidadores, já fazemos as coisas automaticamente. E até criámos uma rotina. Mudamos a fralda, fazemos as mudanças de decúbito na cama, damos a medicação. Sem aviso prévio, sem comunicação, sem um sorriso ou sem prestar atenção ao rosto do doente. Como se, ao ter demência, a pessoa deixou de existir, deixou de ter uma identidade, um passado. Passamos a ver aquela pessoa, como alguém que está ao nosso cuidado. Fazemos a higiene pessoal, mudamos a roupa da cama, damos alimentação, e não há uma aproximação mais pessoal. É algo, robótico.

Mas, afinal, aquela pessoa já teve um passado, teve a sua personalidade. Já teve imensas histórias e já foi útil á sociedade. Mas, agora, a pessoa apenas, existe. Nós a acordamos, damos banho, damos alimentação, medicação, e mudamos a fralda, tudo com o seu horário organizado, e a pessoa, apenas obedece.

Como cuidadores, não podemos devolver anos de vida ou a saúde do utente, mas podemos dar vida aos anos que restam.

Um toque com carinho, uma conversa, uma música, um sorriso ou simplesmente segurar uma mão podem fazer a diferença. Mesmo que a pessoa já não tenha capacidade de falar, ela está a sentir.

Uma música que relembre a sua infância, ou outro momento especial do utente, pode devolver um brilho, no seu olhar vazio.

Um sorriso, uma pequena conversa, um olhar fixo, pode fazer diferença.

Por detrás de cada olhar distante, existe uma história que merece ser lembrada.

Comunicação com uma pessoa com demência: nem sempre temos a melhor abordagem

A forma como nos aproximamos de uma pessoa com demência pode fazer toda a diferença entre um momento de tranquilidade ou de constrangimento.

Um dos erros mais comuns é a infantilização. Embora a pessoa possa ter perdido capacidades cognitivas, continua a ser um adulto, com uma história de vida, dignidade e emoções. Muitas pessoas pensam que os idosos voltam a ser crianças, e automaticamente conversam com os utentes como se fossem crianças, usar um tom excessivamente paternalista ou tratar o idoso como um bebé. E isso pode fazê-lo sentir-se desrespeitado, mesmo que não consiga expressá-lo por palavras.

E porque geralmente fazemos a comparação com crianças?

A demência provoca uma perda progressiva das funções cerebrais. Áreas responsáveis pela memória, linguagem, raciocínio, planeamento, controlo das emoções e autonomia deixam de funcionar normalmente,.

Á medida que a doença avança, a pessoa pode tornar-se dependente para tarefas básicas, ter dificuldade em comunicar, precisar de ajuda para comer, vestir-se ou ir á casa de banho. Estas limitações podem lembrar as de uma criança pequena.

No entanto, o cérebro não está a regressar ao desenvolvimento infantil. Não há um “retrocesso” para uma fase da infância. Trata-se de um processo de degeneração cerebral, e não de um desenvolvimento ao contrário.

Outra diferença é que uma criança está a desenvolver novas capacidades e o seu cérebro está a criar ligações. Já uma pessoa com demência está a perder capacidades que adquiriu ao longo da vida devido á lesão e morte de neurónios.

Outro erro comum é acreditar que é preciso “puxar” constantemente pela pessoa. Falar muito alto, fazer várias perguntas seguidas, insistir para que responda ou realizar movimentos rápidos e cheios de energia pode ser assustador para quem vive com demência. O cérebro tem dificuldade em processar tantos estímulos e, em vez de motivação, o resultado pode ser ansiedade, confusão, agitação ou até comportamentos de resistência. E as pessoas com demência não precisam sentir pressão. Precisam sentir segurança.

As abordagens mais eficazes são simples: aproximar-se calmamente, estabelecer contacto visual, falar devagar, usar frases curtas e dar tempo para que a informação seja compreendida. Um sorriso genuíno, uma voz e presença serena, toque respeitoso (quando bem aceite) e um ambiente tranquilo transmitem confiança e reduzem o medo.

Porque há uma coisa que temos que entender: a pessoa com demência está a perder capacidades, está a perder autonomia. Por vezes nem reconhecem os familiares e sentem que estão com pessoa estranhas. Eles sentem medo, confusão. Eles precisam uma presença segura e que não lhes faça mal.

Muitas vezes, o objetivo não é fazer a pessoa compreender o nosso mundo, mas entrar, por alguns momentos, no mundo dela.

Na demência, nem sempre a melhor intervenção é fazer mais. Muitas vezes, é fazer menos. Mas com mais calma, empatia e mais respeito.

Quando de repente o familiar conversa em fase avançada da demência. Nem sempre é bom sinal

O seu familiar em estado avançado de demência, já não fala muito ou então já nem fala.

Mas, sem ninguém esperar, um dia ele começa a falar. Você olha para o familiar, e o seu coração enche de alegria. Cuidado: nem sempre é bom sinal!

Em fases avançadas da demência, quando uma pessoa já não fala há muito tempo ou comunica apenas através do olhar e de pequenas expressões faciais, ouvir repentinamente palavras ou frases pode ser um momento surpreendente para a família e cuidadoras. É natural que surja a esperança de uma melhoria ou de uma recuperação das capacidades perdidas. No entanto, nem sempre esta mudança representa uma evolução positiva do estado da pessoa.

O aparecimento súbito de fala ou de uma maior agitação verbal pode ser uma forma de expressar que algo não está bem.

Muitas vezes, pessoas com demência avançada já não conseguem comunicar claramente a dor, desconforto ou mal-estar. Nesses casos, alterações inesperadas no comportamento podem ser um importante sinal de alerta.

Uma infeção urinária, febre, dor, obstipação, retenção urinária, dificuldade em respirar, efeitos secundários de medicamentos ou até uma simples mudança na rotina podem provocar alterações no estado mental e na forma como a pessoa se expressa.

Lembro-me um caso em específico, eu cuidava de um senhor com Alzheimer e eu ia ficar com ele pela primeira vez no turno da noite. Custou muito ele dormir nessa noite. Estava mais comunicativo, inquieto e estava constantemente a levantar-se da cama. Só conseguiu dormir pelas 5h da manhã, quando ouviu a voz da mulher, que lhe era bem familiar. A minha voz, ele não conhecia, eu era uma estranha. A mulher trouxe conforto e ele conseguiu dormir.

Quando ele estava na fase final da doença, já nem falava, só comunicava aos gritos, quando as enfermeiras alteravam a sua posição da cama (ele já estava acamado). Acredito que ficava assustado e as mudanças de decúbito causavam-lhe alguma dor.

Três semanas antes dele falecer, houve um dia em que ele comunicava bastante comigo. Dizia coisas bem acertadas e conseguíamos manter uma boa conversa. Saí do meu turno, com o coração cheio. Dia seguinte, já não falou mais e o seu estado de saúde foi ficando cada vez mais debilitado.

Algumas pessoas tornam-se mais agitadas, outras chamam repetidamente por familiares, falam frases desconexas ou utilizam palavras que há muito tempo não eram ouvidas.

Outro caso que tive, cuidava de uma senhora com demência mista, falava muito pouco, mas, haviam certas horas do dia em que começava a rezar, a conversar, a ficar ansiosa. Quis investigar. Pensei logo que estaria com algum tipo de dor.

Deitei ela na cama, e procurava por feridas, até que e encontrei a região logo acima do cóccix (a base das costas), vermelha. A razão para isso, era que estava sentada a algum tempo, e já estava a começar a magoar. Mudanças na rotina, almofada especial e colchão anti-escaras, aliviaram as dores e resolveu o problema.

Por isso, sempre que surgir uma mudança repentina na comunicação de uma pessoa com demência avançada, é importante observar com atenção e avaliar possíveis causas físicas ou emocionais.

A demência pode retirar as palavras, mas não elimina as necessidades, os sentimentos ou o desconforto. Quando a fala reaparece de forma inesperada, ela pode ser mais do que uma simples conversa. Pode ser uma forma que a pessoa encontrou para comunicar que precisa de ajuda.

Quando o familiar estiver agitado ou a comunicar mais, verifique alguns sinais:

  • Se tem prisão de ventre (escreva ou aponte num calendário, sempre que evacuar)
  • Se tem alguma dor por estar muito tempo sentado (inquietação na cadeira)
  • Se tem calor (tenta tirar a roupa, apresenta suor ou cara vermelha)
  • Se tem febre
  • Se tem vontade de urinar (inquietação, mãos nas fraldas ou calças)

A despedida mais difícil: os últimos dias com Alzheimer

Há despedidas que começam devagar. E, como cuidadora, já presenciei despedidas dolorosas.

No Alzheimer, muitas vezes perdemos a pessoa aos poucos, entre silêncios, esquecimentos e olhares que já não conseguem encontrar o caminho de volta.

Muitas vezes, é uma aventura, um misto de emoções, durante o cuidado de alguém com esta patologia. Muitas vezes eles não reconhecem o familiar, são agressivos, parecem “mal agradecidos”, ou que nem estão a ouvir o que estamos a dizer. Parece que fazem mesmo de prepósito. Mas, há dias em que eles de repente conhecem o familiar e são mais calmos. Chamam pelo nome, ou sabem que são pessoas importantes na vida deles. E, são esses momentos que são mais gratificantes, que afinal, a pessoa ainda existe, dentro daquela confusão no cérebro.

E, nos últimos dias, o coração vive com o desejo de segurar e a necessidade de deixar partir.

Os cuidados paliativos ensinam algo profundamente humano: nem sempre é possível curar, mas é sempre possível cuidar. Cuidar da dor, do conforto, da dignidade e do amor até ao último instante. Às vezes, o maior gesto de amor é simplesmente estar presente. Segurar uma mão, falar com calma, acariciar o rosto e dizer: “Pode descansar. Está tudo bem”

Dizer adeus nunca é fácil. Mas permitir que alguém parta em paz também é uma forma de amor. Porque algumas pessoas deixam de lembrar os nossos nomes, mas nunca deixam de sentir o carinho com que foram cuidadas.

No vídeo abaixo, mostra uma dessas despedidas.

Ana Heloisa Brandao, cuidou da mãe, com Alzheimer. E entre tantas conversas que faziam parte da rotina diária entre mãe e filha, a filha decidiu despedir-se da mãe, algumas semanas antes desta falecer.

“Algumas pessoas me criticaram por eu ter postado esse momento, mas durante todos esses anos compartilhei com vocês cada fase da nossa caminhada. Achei que essa despedida também poderia ajudar alguém.
Talvez exista alguém querendo se despedir… e sem saber como fazer.
Não precisa de palavras perfeitas. Tenha apenas uma conversa com o coração aberto. Diga o que sente. Permita que o amor fale mais alto que a dor.
E, acima de tudo, liberte quem você ama desse sofrimento.
Isso fará bem para você… e também para quem está partindo”- Disse Ana Heloisa.
Este vídeo, é emocionante, mas, a meu ver, é algo que merece ser compartilhado. Porque, se há uma certeza na vida, é que um dia vamos morrer. Um dia o nosso querido familiar vai morrer. E, a despedida, consegue tão libertadora, tanto para o familiar, tanto para nós.

O seu familiar com demência recusa-se a tomar banho? Saiba o porquê e estratégias

Quando o familiar com demência não quer tomar banho, este torna-se um dos momentos mais desgastantes para quem cuida de uma pessoa com demência em casa. Não é teimosia, capricho ou falta de educação.

É uma manifestação neurológica real, que pode transformar um momento de cuidado numa situação de conflito diário.

Muitas famílias tentam explicar a importância da higiene. Insistem que “é preciso tomar banho”.

Recorrem a argumentos racionais sobre cheiros ou aparência. E quanto mais insistem, mais a pessoa resiste. Este padrão repete-se em milhares de lares todas as semanas.

A boa notícia é que existem estratégias práticas que respeitam a neurologia alterada da demência e que podem transformar este momento. Não são truques mágicos. São ajustes baseados na compreensão de como o cérebro com demência processa a situação do banho.

Este artigo explica-lhe por que razão o seu familiar com demência não quer tomar banho e apresenta  estratégias concretas que já resultaram com centenas de famílias.

Por que razão a pessoa com demência não quer tomar banho?

Quando o seu familiar com demência não quer tomar banho, não se trata de uma questão de vontade. É uma manifestação de como o cérebro alterado processa esta situação complexa.

A memória de longo prazo pode ainda conter o registo de que o banho é um momento absolutamente privado.

Simultaneamente, a pessoa pode ter perdido a capacidade de compreender que já não consegue realizar esta tarefa sozinha.

Ou pode nem reconhecer que precisa de ajuda.

Como a pessoa com demência vivencia o momento do banho

Do ponto de vista neurológico, o resultado é claro: uma pessoa estranha (mesmo que seja família próxima) está a tentar despir o seu corpo e tocar nas suas partes íntimas.

Esta situação pode ser vivida como uma invasão real, gerando reação defensiva imediata.

O cérebro com demência pode não reconhecer o cuidador como alguém de confiança naquele momento. Pode não compreender a intenção de ajuda.

Apenas regista a ameaça percebida.

O ciclo de conflito que desgasta a família

Quando a pessoa com demência não quer tomar banho e o familiar cuidador insiste, torna-se uma luta diária e o desgaste emocional afeta toda a família.

O que deveria ser um ato de cuidado transforma-se em confronto.

Este ciclo repete-se: insistência – resistência – frustração – culpa.

E a cada repetição, a situação tende a piorar. A pessoa associa o banho a stress, e o cuidador associa o momento a fracasso.

As causas neurológicas por trás da recusa do banho na demência

Perda da sequência motora

O cérebro com demência pode perder a capacidade de executar sequências complexas. Abrir o chuveiro, regular a temperatura, ensaboar o corpo, enxaguar – cada passo exige planeamento motor que pode já não estar disponível.

A pessoa pode ficar paralisada diante da tarefa, sem saber por onde começar. Esta paralisação não é preguiça. É incapacidade neurológica real.

Alteração da percepção sensorial

A água a cair de cima pode ser sentida como algo agressivo. O som do chuveiro pode assustar. A temperatura, mesmo regulada, pode ser percebida como demasiado fria ou quente.

A sensibilidade sensorial aumenta em muitas formas de demência. O que para nós é um banho normal, para a pessoa com demência pode ser uma experiência sensorial insuportável.

Medo de cair e perda de equilíbrio

As alterações neurológicas afetam o equilíbrio e a coordenação. A casa de banho, com superfícies molhadas e escorregadias, torna-se um espaço assustador.

Este medo pode não ser verbalizado. Mas está presente. E manifesta-se como resistência absoluta a entrar na banheira ou no poliban.

Estratégias quando o seu familiar com demência não quer tomar banho

Estas estratégias não funcionam todas com todas as pessoas. O que resulta depende do perfil individual.

A chave está em testar, ajustar e aceitar que o que funciona hoje pode não funcionar amanhã. Faz parte do processo.

1. Prepare o ambiente antes do banho para reduzir a resistência

O ambiente físico influencia diretamente a aceitação do banho quando a pessoa com demência não quer tomar banho.

Aqueça a casa de banho 10 a 15 minutos antes. Use aquecedor ou feche janelas para evitar correntes de ar. O frio intensifica a resistência e aumenta o desconforto.

Tenha o roupão quente e pronto para vestir imediatamente ao sair. Os tremores e a sensação de vulnerabilidade podem desencadear agitação.

Garanta segurança visível: barras de apoio bem fixas, tapete antiderrapante, cadeira própria de banho. Evite que seja diretamente numa banheira alta, pois o familiar pode já ter alguma dificuldade na locomoção e pode ser complicado para ele e difícil de entender que ainda tem de entrar para aquela banheira confusa e alta. A segurança percebida reduz o medo de cair, que pode estar por trás da recusa.

Preserve a roupa íntima durante o banho para manter a dignidade

Esta é uma das estratégias mais eficazes para reduzir a sensação de invasão quando a pessoa com demência não quer tomar banho e este momento se torna problemático.

Mantenha a peça interior durante a lavagem inicial. Lave por cima ou troque apenas no final, quando a pessoa já está mais relaxada.

Esta pequena barreira de roupa pode preservar a dignidade percebida. Reduz drasticamente a sensação de exposição e vulnerabilidade que desencadeia a resistência defensiva.

Aplique o “Banho por Etapas” ao longo da semana

Quando a resistência é muito intensa, o banho completo diário pode não ser realista nem necessário. A higiene essencial pode ser mantida de forma fragmentada.

Segunda-feira: cara e mãos

Terça-feira: cabelo (pode ser na bacia, sem necessidade de chuveiro completo)

Quarta-feira: tronco, axilas, zona abaixo do peito, costas

Quinta-feira: pernas e pés com massagem suave

Sexta-feira: zona íntima com toalhitas ou pano húmido

Este método pode ser menos invasivo, gerar menos conflito e ser sustentável para o cuidador a longo prazo.

4. Use a técnica da “Lavagem Ativa”

Transforme o banho numa atividade partilhada em vez de algo que se faz à pessoa.
Coloque a esponja na mão do seu familiar e guie o movimento suavemente.

Inicie sempre pelos pés: molhe primeiro os pés e vá subindo progressivamente. Esta adaptação gradual reduz o choque sensorial. Agache-se e tente ficar ao mesmo nível ou abaixo, do seu familiar, enquanto começa por lavar os seus pés. Dê um sorriso, torne o ambiente o mais leve possível e dê a entender que é algo que costumam fazer diariamente. Tente o máximo de descontração possível. Eles baixam a guarda quando percebem que afinal faz parte da rotina e que é uma experiência banal e positiva.

Use chuveiro de mão em vez da água a cair de cima com pouco fluxo de água. Regule bem a temperatura. Geralmente toleram mais água morna do que quente ou fria. Os idosos tem a pele mais fina e sentem mais os estímulos e as mudanças bruscas de temperatura. Água muito quente ou fria, para eles é como se estivesse literalmente a torturar.

Se o familiar não gostar do chuveiro, use uma esponja ou toalha macias, molhe na água morna e passe na pele do idoso, devagar, com leves batidinhas, sem esfregar. Seja o mais delicado possível.

Mude a linguagem: se gera resistência, nunca diga a palavra “banho”

A palavra “banho” pode desencadear resistência imediata em pessoas com demência. Experimente substituir por expressões neutras ou positivas.

“Vamos refrescar-nos.”
“Vamos arranjar-nos para o almoço.”
“Massagem nas pernas com água quentinha.”

Estas formulações contornam a barreira mental associada ao termo “banho”.

Crie narrativas alternativas que façam sentido: “Vamos preparar-nos, o teu irmão vem almoçar connosco.” Use desculpas sociais positivas: “Vai chegar uma visita importante, é preciso estar apresentável e cheiroso.”

Muitas famílias relatam que a simples mudança de linguagem transformou a experiência da demência tomar banho em casa.

Use novidade para reduzir a resistência ao banho

Criar uma sensação de evento especial pode reduzir a defensiva automática.

Apresente um sabonete ou champô “novo e especial”: “Trouxe isto especialmente para si, tem um cheiro muito bom.”  Fique entusiasmado(a) ao dizer isto ao seu familiar. Aprenda que, ás vezes eles já não conseguem acompanhar uma conversa, mas ainda reconhecem um olhar. Se soubermos comunicar com o nosso olhar e regular o nosso tom de voz, eles entendem melhor e sentem mais segurança.

 Use a distração durante o banho para reduzir o desconforto

Ocupar a mente com algo agradável durante o banho reduz o foco na situação que gera desconforto.

Fale sobre memórias específicas da juventude. Cante músicas familiares da época deles. Conte histórias que possam captar a atenção emocional. Coloque músicas do Youtube ou outras aplicações, que eles gostam.

Outra estratégia: convide para “ajudar” noutra tarefa.

“Vem ajudar-me a limpar a casa de banho?”

Quando já está no espaço, inicie a lavagem suavemente. Pode até molhar discretamente a roupa e depois falar sobre a necessidade de a trocar.

Parece manipulação? Não é. É trabalhar com a neurologia alterada em vez de lutar contra ela.

Aceite que nem sempre o banho completo é possível

Há dias em que nenhuma estratégia resulta. E está tudo bem.

Nestes casos, mantenha a higiene essencial: cara, mãos, axilas e zona íntima com toalhitas húmidas.

Um dia sem banho completo não compromete a saúde nem a dignidade.

Preserve a relação. Um conflito violento por causa do banho pode danificar o vínculo de confiança que sustenta todos os outros cuidados.

Reavalie no dia seguinte com estratégia diferente. A desafio do banho pode ainda não ter desaparecido, mas a abordagem pode ser ajustada continuamente.

 

Fazer tudo pelo idoso: amor ou necessidade de controlo?

Você fez o almoço e o seu familiar prepara-se para ajudar-lhe a lavar a loiça. Ao perceber aquele gesto, você pensa logo: “A loiça vai ficar mal lavada e ele é capaz de partir algum copo! Melhor ser eu a fazer!” E sem hesitar, diz logo que ele está incapacitado para fazer tal tarefa e que é melhor ele se sentar o sofá.

Cuidar de um idoso não é fazer fazer tudo por ele .É ajudá-lo a continuar a sentir-se útil, capaz e humano.

Muitas vezes, por pressa ou carinho, dizemos logo: “Deixe, você não consegue. Eu faço.”

Mas cada pequena tarefa que retiramos, pode também retirar autonomia, autoestima e vontade de lutar.

Mesmo com limitações, o idoso precisa de estímulo diário. Dobrar uma roupa, segurar uma colher, pentear o cabelo, regar uma planta, escolher a roupa do dia… tudo isso mantém o cérebro ativo, preserva movimentos e fortalece a dignidade.

Fazer por eles, é importante. Mas deixar que façam o que ainda conseguem, é também uma forma profunda de amor e cuidado.

Existe uma diferença entre cuidar e substituir completamente o idoso, como se estivéssemos a anular, como pessoa.

Quando fazemos tudo pelo idoso o tempo inteiro (isto é válido também para pessoas com transtornos mentais e outras doenças) sem dar oportunidade de tentar, acabamos por acelerar perdas que poderiam ser mais lentas. O corpo desacostuma-se do movimento. A mente desacostuma-se de decidir, pensar e participar.

Muitas pessoas deixam de fazer não porque perderam totalmente a capacidade, mas porque ouviram tantas vezes “Não consegue”, que começam a acreditar nisso.

O estímulo diário é uma forma de manter a identidade da pessoa viva. Dar tempo para que ela tente vestir-se, incentivar a pegar no copo, conversar durante as tarefas, pedir pequenas opiniões… tudo isso trabalha o cérebro, a coordenação, a memória e também a emocional.

Claro que há momentos em que precisam de ajuda total. Mas mesmo nesses casos, ainda podemos incluir a pessoa no cuidado: “Quer esta camisola ou aquela?” “Consegue segurar isto para mim?”

Pequenos gestos fazem logo uma diferença. O familiar não precisa apenas de higiene, medicação e alimentação. Precisa sentir que ainda participa na própria vida.

E o que dizer sobre a pessoa que cuida? 

Nem sempre a pessoa que faz tudo pela pessoa é má cuidadora.

Muitas vezes faz por amor, pressa, ansiedade ou medo de ver o familiar falhar, cair ou sofrer.

Mas existe também um lado psicológico importante nisso.

Algumas pessoas têm dificuldade em permitir que o outro mantenha autonomia, porque sentem necessidade de controlar tudo á volta.

Há cuidadores que, inconscientemente sentem valor pessoal quando são indispensáveis. Quanto mais o outro depende deles, mais sentem que têm um papel, uma missão ou importância emocional. E isso pode acontecer sobretudo em pessoas emocionalmente carentes, muito ansiosas ou com sensação de vazio interior.

Também existe o medo do julgamento: “Se ele demora, faz mal feito ou cai, vão achar que eu não cuidei bem.”

Então,  cuidador acelera tudo, faz tudo sozinho e retira ao familiar a oportunidade de participar.

O problema é que, sem perceber, pode transformar cuidado em excesso de dependência.

Por detrás de um cuidador muito controlador, muitas vezes existem feridas emocionais, medos e padrões antigos que quase ninguém vê.

Alguns cresceram em ambientes onde errar não era permitido. Então desenvolveram necessidade de controlar tudo para se sentirem seguros.

Outros viveram abandono emocional, falta de reconhecimento ou solidão profunda.

E também á quem tenha ansiedade elevada. Ver o familiar a demorar, tremer, deixar cair algo, gera desconforto interno.

Então o cuidador interfere imediatamente para aliviar a própria ansiedade.

Muitas pessoas confundem amor com sacrifício total. Foram ensinadas desde cedo que cuidar é dar conta de tudo.

Em alguns casos, o cuidador carrega culpa: “Tenho de fazer tudo perfeito, se acontecer algo, a culpa será minha.”

Também existem cuidadores emocionalmente esgotados. Quando estão cansados, sem apoio e sobrecarregados deixam de ter paciência para esperar o tempo do idoso. Fazer sozinho torna-se mais rápido e menos desgastante.

Cuidar não é dominar a vida do outro. É apoiar sem apagar a capacidade que ainda existe.

O melhor cuidador não é aquele que faz tudo. É aquele que sabe ajudar sem retirar dignidade, escolha e autonomia.

Quando a Coluna Cede: O Desafio dos Desvios Posturais nas Doenças Neurodegenerativas

Cuidar de alguém com uma doença neurodegenerativa como Parkinson, Alzheimer ou Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) , é uma jornada de adaptação constante. Numa fase inicial, a nossa atenção foca-se quase sempre nas falhas de memória, nas alterações de comportamento ou nos tremores. Contudo, à medida que estas condições avançam, o corpo começa a desenhar um novo desafio físico, muitas vezes visível à distância: a coluna começa a desviar-se para o lado ou a inclinar-se severamente para a frente.
Para quem cuida, ver a pessoa querida ficar “torta” ou curvada causa uma enorme angústia. É fundamental compreender que este desvio não é uma teimosia postural nem um problema puramente dos ossos. Você não errou ao sentar o seu familiar na cadeira.
Trata-se do reflexo visível de um cérebro que está a perder a capacidade de controlar os músculos que nos mantêm de pé.
Por que razão o corpo se inclina?
A nossa coluna mantém-se direita graças a um trabalho de equipa perfeito entre o cérebro e os músculos das costas e do abdómen. Nas doenças neurodegenerativas, a “fiação elétrica” que envia as ordens do cérebro para estes músculos começa a falhar.
Isto manifesta-se de três formas principais:
  • Fraqueza muscular assimétrica: Muitas vezes, um dos lados do corpo perde força mais rapidamente do que o outro. Sem o suporte adequado, a gravidade vence e o tronco tomba para o lado mais fraco ou é puxado pelo lado mais forte.
  • Rigidez e espasmos: Em doenças como o Parkinson, os músculos podem tornar-se tão rígidos que forçam o corpo a adotar uma posição curvada (conhecida como camptocormia) ou totalmente inclinada para o lado (chamada Síndrome de Pisa).
    • Perda da perceção corporal: Em fases avançadas de demências (como o Alzheimer), o doente perde a noção tridimensional do próprio corpo e do espaço, inclinando-se sem perceber que está desalinhado.
    • Nos estados avançados do Alzheimer, é muito comum o idoso começar a sentar-se torto, deslizar do sofá ou perder o alinhamento com o corpo. Isso acontece porque  cérebro deixa de coordenar bem a postura, o equilíbrio e a perceção corporal.
      O impacto no dia a dia do doente e do cuidador
      Estes desvios posturais trazem consequências que vão muito além da estética:
      1. Aumento do risco de quedas: Com o corpo inclinado, o centro de gravidade muda. O equilíbrio fica gravemente afetado, tornando o ato de andar ou de se levantar altamente perigoso.
      2. Dificuldade em respirar e comer: O tronco curvado comprime os pulmões e o estômago. Isto pode dificultar a respiração profunda e aumentar o risco de engasgamento durante as refeições.
      3. Dor e isolamento: A postura forçada causa dores musculares contínuas. Além disso, ao não conseguir olhar em frente, o doente tende a isolar-se e a interagir menos com quem o rodeia.
        Como o cuidador pode ajudar? Estratégias Práticas
        Embora nem sempre seja possível corrigir o desvio por completo, o papel do cuidador é vital para garantir o conforto, prevenir lesões e aliviar a dor.
        • Estimule a mudança de posição: Evite que a pessoa passe horas exatamente na mesma posição. Se estiver na cama, faça alternância de lados e use almofadas entre os joelhos para alinhar a coluna.
        • Fisioterapia especializada: A fisioterapia neurológica não procura a postura perfeita, mas sim manter a flexibilidade possível, alongar os músculos encurtados e ensinar transferências seguras da cama para a cadeira.
        • Adapte o ambiente: Se o doente ainda caminha, garanta que os corredores estão livres de tapetes. Instale barras de apoio nas paredes para compensar o desvio do equilíbrio.
        • Ajuste o posicionamento nas cadeiras e sofás: Quando o doente estiver sentado, evite que fique tombado. Utilize almofadas posturais, rolos de espuma ou toalhas enroladas nas laterais do tronco para dar suporte. Manter os pés bem apoiados no chão ou num suporte é crucial para estabilizar a bacia.
        • Conclusão: O foco é a dignidade
          Diante de doenças neurodegenerativas, o objetivo do tratamento da coluna não é a simetria perfeita que vemos num raio-X. O verdadeiro sucesso mede-se pelo bem-estar. Garantir que o seu familiar está sentado confortavelmente, sem dores, capaz de respirar livremente e de olhar nos olhos de quem ama é o maior ato de cuidado e dignidade que lhe pode oferecer.
          Se notar que o desvio da coluna do seu familiar está a progredir rapidamente ou a causar desconforto, converse com o neurologista ou com um médico fisiatra para reajustar o plano de reabilitação.

Onde o Alzheimer não levou o amor

Eu uso o Tik Tok. Muitas pessoas podem considerar que é uma aplicação banal ou que não tem conteúdo. Mas, dependendo daquilo que procuramos, encontramos muitos vídeos educacionais e profundos.

Sendo eu, uma entusiasta do assuntos acerca do nosso cérebro, também procuro vídeos sobre a minha área: cuidados de demências, geriatria, transtornos mentais, etc.

Eis que um dia estava na aplicação e apareceram uns vídeos, que não fiquei nada indiferente. Um senhor, com 91 anos, vulnerável, brincando com coisinhas simples. Bonequinhos, garrafas… e o mais surpreendente, a forma que a família cuida dele. Foi amor á primeira vista.

Decidi escrever para a filha cuidadora dele. Em primeiro lugar, tinha de elogiar o pai e  forma como cuidam dele. E, tinha de partilhar a história deles. Uma história, do mais variado leque de histórias, que muitas famílias tem, especialmente quando a demência bate á porta.

No interior quente de Sátiro Dias, onde o vento levanta poeira nas estradas de terra, vive o Senhor Antônio, conhecido como António de aurinha. Com ele, moram mais 4 pessoas: a mulher, a filha mais nova e o filho dela.

Um homem que foi muito trabalhador, de gênio forte, que sustentou sete filhas. Na verdade, eram 11, mas morreram quatro e ele sempre acordava as 4h da manhã para pegar Caju Umbu.

Antes do Alzheimer, ele era conhecido como um homem forte. Nunca reclamou do trabalho, pois nada era mais gratificante  do que colocar alimentos na mesa, ele certificava-se que nunca faltaria comida para a sua família.

Mas a doença foi chegando devagar. Primeiro vieram os esquecimentos pequenos, depois os caminhos desapareceram dentro da própria cabeça dele.

Taize, a filha mais nova, aprendeu a sofrer em silêncio.

Aprendeu a dar banho como quem embala uma criança.

A repetir a mesma resposta vinte vezes sem perder a calma. A esconder o cansaço atrás de um sorriso, quando ele perguntava: “Minha filha, eu já almocei?”

O amor, ás vezes, não aparece em grandes gestos Aparece  numa colher de sopa dada devagar, um cafezinho com todo o cuidado, numa fralda trocada com respeito.

E embora o Alzheimer estivesse levando as memórias do pai, Taize lutava todos os dias para que ele nunca esquecesse uma coisa: que era amado.

Ele já não tem a força dos homens da roça de antigamente.

As mãos estão magras, a pele marcada pelo tempo, e o olhar parece caminhar entre lembranças que ninguém mais consegue alcançar. Aos 91 anos, sentado na sua cadeirinha, ele carrega no corpo o peso de uma vida inteira.

Talvez ninguém imagine que aquele homem frágil já enfrentou sol forte, terra seca e dias difíceis para sustentar a família no interior de Sátiro Dias.

Hoje, o Alzheimer apagou muitos caminhos dentro da sua memória. Mas há coisas que a doença ainda não conseguiu levar: a dignidade do seu rosto, a história escrita nas suas mãos e o amor silencioso de quem continua ao lado dele todos os dias.

Naquele pequeno gesto e segurar um brinquedo nas mãos cansadas, existe algo mais profundamente humano. Um homem que um dia protegeu os outros, agora precisa ser protegido.

Conheçam a história deste senhor, e vejam o dia a dia, da família e a forma como cuidam.

Cliquem no link, e apaixonem-se, como eu.

@izetay1

 

Amor para a eternidade

Ao longo do meu percurso como cuidadora de idosos, já presenciei muitas histórias. E tenho aprendido muito. Tenho aprendido, que afinal, ainda existem aquelas histórias de amor, que pensávamos que existiam só nas telenovelas. Entre algumas histórias lindas de amor que já presenciei, esta se destaca.
Um casal de idosos. Ele na altura tinha 89 anos, quando comecei a cuidar dele. E ela, 88. Se existem casais que foram feitos um para o outro, este casal com certeza seria um deles.
Todas as manhãs, ele fazia questão de levantar-se mais cedo, para me ajudar a preparar o pequeno almoço para a esposa. Ele fazia para ele, mas dividia sempre o seu comer com a sua mulher. Ali não havia egoísmo. Era tudo dividido. Ele pensava em todos os detalhes. Enchia sempre o copo com água para a esposa e olhava para mim, atentamente, a ver se eu fazia as coisas corretas para a mulher. Não no sentido autoritário, mas ele fazia questão que nada faltasse ao amor da vida dele. Depois iam ver televisão os dois. Lado a lado, de mãos dadas. E ele, com a sua paciência e dedicação, oferecia água a ela, caso ela tivesse sede. E quando ela deitava-se na cama, não poderia faltar, aquele beijinho carinhoso.
Haviam momentos engraçados, me lembro de uma vez que ele gostava de comentar sobre o tempo: “Está sol, mas está frio!” e isto repetia-se durante o dia. A esposa, com um olhar de chateada, disse-me: “Ele já me aborrece, diz sempre a mesma coisa!”-pormenor, ela tinha alzheimer.
Lembro-me um dia importante, quando ele fez 90 anos, veio a família comemorar e felizmente calhou eu estar a trabalhar nesse dia. Eu observava ele. Ele estava num canto, na mesa, de frente para todos, e olhava-os a conviver. Não seria difícil tentar adivinhar o que ele estava a pensar nessa hora. O olhar de orgulho, o denunciava. Orgulho de ter formado uma família tão bonita e acolhedora. Mas também acredito, que ele perguntava a si próprio, se esse seria o último aniversário que passariam todos, reunidos.
Infelizmente, passado pouco tempo, ele faleceu. A esposa sentia a falta dele. A cada dia que passava, eu notava que ela sentia-se triste. E era de partir o coração, quando ela chamava por ele. Quando ela dizia para ele acordar e levantar-se. Mas ninguém respondia. A cama estava vazia, e a esposa sentia-se como aquela cama. Vazia.
Talvez ele, lá de cima, estava a ver ela a sofrer. Talvez, ela já tivesse perdido a vontade de viver. Já não fazia sentido, estar sozinha naquela cama. Embora ela dormia com um bonequinho especial, que eu coloquei para a aconchegar, nunca seria igual, á companhia do seu verdadeiro amor. E eu acredito, ele já estava a chamar por ela. Era hora de partir.
E assim foi, 3 semanas sensivelmente depois, ela partiu deste mundo, em paz, e foi ao encontro do amor da vida dele. Eram almas gémeas.
Se fico triste com o falecimento deles? Fico, e muito. Em tão pouco tempo que trabalhei lá, sentia o amor deles e aprendi muito.
É uma das razões que adoro o que faço. Nunca sei o que me espera. Cuido sempre com alma e coração e ganho depois, estrelinhas no céu. Paz ás suas almas.

Presença, alívio e dignidade: o verdadeiro sentido dos cuidados paliativos

Falar de cuidados paliativos é falar de humanidade num dos momentos mais vulneráveis da vida. Quando a cura deixa de ser possível, o foco muda: deixa de ser “lutar contra a doença” e passa a ser cuidar da pessoa como um todo. Aliviar dor, controlar sintomas, oferecer conforto emocional e garantir dignidade até ao fim.

Os cuidados paliativos podem acontecer tanto no hospital como no domicílio, e cada contexto tem o seu valor. No hospital, existe acesso a equipas multidisciplinares, medicação e tecnologia que ajudam a controlar sintomas complexos. É um ambiente mais estruturado, muitas vezes necessário em fases mais instáveis da doença. No entanto, pode ser também um espaço frio e impessoal, onde o doente se sente longe da sua rotina e da sua rotina e das suas referências afetivas.

Já no domicílio, o cuidado ganha outro significado. A pessoa está no seu espaço, rodeada pelos seus objetos, memórias e, principalmente, pela família. Há mais intimidade, mais proximidade e, muitas vezes, mais tranquilidade.

Pequenos gestos, como segurar a mão, ouvir uma música, respeitar silêncios, tornam-se profundamente significativos.

Mas cuidar em casa, também exige preparação, apoio e, muitas vezes, um desgaste físico e emocional por parte de quem cuida.

Algumas famílias pedem o meu conselho. Mas, a grande verdade, é que não existe um cenário perfeito. Existe o cenário possível e mais adequado a cada situação.

O mais importante é que o doente não seja reduzido á sua doença, mas visto como alguém com história, sentimentos e necessidades únicas. Nos cuidados paliativos, cuidar não é desistir. É, na verdade, uma das formas mais profundas de respeito pela vida. É garantir que, mesmo quando já não há tempo para curar, há sempre tempo para aliviar, confortar e estar presente.

Porque no fim, mais do que prolongar dias, o que realmente importa… é dar qualidade e dignidade ao tempo que resta.

Ao longo do meu trabalho, muitas famílias procuram-me com dúvidas difíceis, daquelas que não têm respostas simples. Perguntam-me, por exemplo, sobre a colocação de sondas nasogástricas em fases muito avançadas: vale a pena? Vai ajudar ou apenas prolongar sofrimento?

E aqui é preciso ter coragem para falar com verdade e sensibilidade. Em muitos casos, nos dias finais de vida, o corpo já não consegue processar alimentos da mesma forma.

Forçar a alimentação, mesmo por sonda, nem sempre traz conforto. Pode causar desconforto, retenção, infeções ou até mais sofrimento. Nessas fases, a prioridade deixa de ser nutrir o corpo e passa a ser aliviar sintomas e respeitar o ritmo natural do organismo.

Isto não significa abandonar. Significa mudar a forma de cuidar. Hidratar a boca, aliviar dor, posicionar com conforto, estar presente. Significa perceber que cuidar também é saber quando não intervir de forma invasiva.

Essas decisões devem ser sempre tomadas com orientação médica e, sempre que possível, respeitando a vontade do próprio doente. Mas acima e tudo, devem ser guiadas por uma pergunta simples e honesta: isto está a trazer conforto… ou apenas a prolongar um processo inevitável?

Cuidar de alguém no fim de vida não é sobre fazer tudo o que é possível… é sobre fazer o que realmente faz sentido para aquela pessoa.

Nem sempre mais intervenções significam mais cuidado. Ás vezes, significam apenas mais sofrimento. E aceitar isso não é desistir. É um ato de amor maduro, consciente e corajoso.

As famílias não precisam carregar o peso de “salvar” quem já está numa fase final. O papel delas é outro: é estar presente, é dar conforto, é garantir que aquela pessoa não está sozinha, nem com dor, nem com medo.

Se houver uma dúvida constante “estamos a fazer o suficiente?” talvez a pergunta mais certa seja: “Estamos a dar conforto? Estamos a respeitar a dignidade desta pessoa?”

Porque no fim, o que fica não é se houve uma sonda, mais um tratamento ou mais um dia…

O que fica é a forma como aquela pessoa foi cuidada, olhada e acompanhada.

E aqui vai algo importante que pouca gente diz diretamente: vocês não têm de escolher entre amar e deixar partir. É possível fazer os dois ao mesmo tempo.

Permitir um fim digno, sem sofrimento desnecessário, também é uma forma profunda de amor.

A despedida

Muitas famílias evitam a despedida por medo de “acelerar o fim”, de emocionar demais o doente ou por não saberem o que dizer. Mas a verdade, é direta: o não dito costuma pesar mais do que o dito.

Se houver consciência, mesmo que parcial, o doente geralmente sente a presença, o tom de voz, o afeto. E esse momento pode trazer paz. Tanto para quem vai, como para quem fica.

O que dizer?

Não precisa de discursos perfeitos. Precisa de verdade.

Coisas simples que têm um impacto enorme:

  • “Gosto muito de ti”
  • “Obrigado por tudo o que fizeste por mim”
  • “Perdoa-me, se for preciso”
  • “Está tudo bem, podes descansar”

Esta última frase, em particular, muitas vezes é libertadora. Há pessoas que parecem “agarradas” porque sentem que a família ainda não está pronta. Dar permissão para descansar pode trazer uma serenidade profunda.

Muitas pessoas engolem tudo. Os sentimentos, as palavras. Parece que não, mas abrindo-se, neste momento tão delicado e especial, pode as ajudar a seguir em frente com a sua própria vida e a lidar melhor com as suas emoções.

O essencial é isto: Se houver algo importante para dizer, diga. Mesmo com a voz a tremer. Mesmo em poucas palavras.

Porque no fim, a despedida não é só sobre quem parte… é também sobre quem fica a conseguir viver com mais paz depois.