A despedida mais difícil: os últimos dias com Alzheimer

Há despedidas que começam devagar. E, como cuidadora, já presenciei despedidas dolorosas.

No Alzheimer, muitas vezes perdemos a pessoa aos poucos, entre silêncios, esquecimentos e olhares que já não conseguem encontrar o caminho de volta.

Muitas vezes, é uma aventura, um misto de emoções, durante o cuidado de alguém com esta patologia. Muitas vezes eles não reconhecem o familiar, são agressivos, parecem “mal agradecidos”, ou que nem estão a ouvir o que estamos a dizer. Parece que fazem mesmo de prepósito. Mas, há dias em que eles de repente conhecem o familiar e são mais calmos. Chamam pelo nome, ou sabem que são pessoas importantes na vida deles. E, são esses momentos que são mais gratificantes, que afinal, a pessoa ainda existe, dentro daquela confusão no cérebro.

E, nos últimos dias, o coração vive com o desejo de segurar e a necessidade de deixar partir.

Os cuidados paliativos ensinam algo profundamente humano: nem sempre é possível curar, mas é sempre possível cuidar. Cuidar da dor, do conforto, da dignidade e do amor até ao último instante. Às vezes, o maior gesto de amor é simplesmente estar presente. Segurar uma mão, falar com calma, acariciar o rosto e dizer: “Pode descansar. Está tudo bem”

Dizer adeus nunca é fácil. Mas permitir que alguém parta em paz também é uma forma de amor. Porque algumas pessoas deixam de lembrar os nossos nomes, mas nunca deixam de sentir o carinho com que foram cuidadas.

No vídeo abaixo, mostra uma dessas despedidas.

Ana Heloisa Brandao, cuidou da mãe, com Alzheimer. E entre tantas conversas que faziam parte da rotina diária entre mãe e filha, a filha decidiu despedir-se da mãe, algumas semanas antes desta falecer.

“Algumas pessoas me criticaram por eu ter postado esse momento, mas durante todos esses anos compartilhei com vocês cada fase da nossa caminhada. Achei que essa despedida também poderia ajudar alguém.
Talvez exista alguém querendo se despedir… e sem saber como fazer.
Não precisa de palavras perfeitas. Tenha apenas uma conversa com o coração aberto. Diga o que sente. Permita que o amor fale mais alto que a dor.
E, acima de tudo, liberte quem você ama desse sofrimento.
Isso fará bem para você… e também para quem está partindo”- Disse Ana Heloisa.
Este vídeo, é emocionante, mas, a meu ver, é algo que merece ser compartilhado. Porque, se há uma certeza na vida, é que um dia vamos morrer. Um dia o nosso querido familiar vai morrer. E, a despedida, consegue tão libertadora, tanto para o familiar, tanto para nós.

Presença, alívio e dignidade: o verdadeiro sentido dos cuidados paliativos

Falar de cuidados paliativos é falar de humanidade num dos momentos mais vulneráveis da vida. Quando a cura deixa de ser possível, o foco muda: deixa de ser “lutar contra a doença” e passa a ser cuidar da pessoa como um todo. Aliviar dor, controlar sintomas, oferecer conforto emocional e garantir dignidade até ao fim.

Os cuidados paliativos podem acontecer tanto no hospital como no domicílio, e cada contexto tem o seu valor. No hospital, existe acesso a equipas multidisciplinares, medicação e tecnologia que ajudam a controlar sintomas complexos. É um ambiente mais estruturado, muitas vezes necessário em fases mais instáveis da doença. No entanto, pode ser também um espaço frio e impessoal, onde o doente se sente longe da sua rotina e da sua rotina e das suas referências afetivas.

Já no domicílio, o cuidado ganha outro significado. A pessoa está no seu espaço, rodeada pelos seus objetos, memórias e, principalmente, pela família. Há mais intimidade, mais proximidade e, muitas vezes, mais tranquilidade.

Pequenos gestos, como segurar a mão, ouvir uma música, respeitar silêncios, tornam-se profundamente significativos.

Mas cuidar em casa, também exige preparação, apoio e, muitas vezes, um desgaste físico e emocional por parte de quem cuida.

Algumas famílias pedem o meu conselho. Mas, a grande verdade, é que não existe um cenário perfeito. Existe o cenário possível e mais adequado a cada situação.

O mais importante é que o doente não seja reduzido á sua doença, mas visto como alguém com história, sentimentos e necessidades únicas. Nos cuidados paliativos, cuidar não é desistir. É, na verdade, uma das formas mais profundas de respeito pela vida. É garantir que, mesmo quando já não há tempo para curar, há sempre tempo para aliviar, confortar e estar presente.

Porque no fim, mais do que prolongar dias, o que realmente importa… é dar qualidade e dignidade ao tempo que resta.

Ao longo do meu trabalho, muitas famílias procuram-me com dúvidas difíceis, daquelas que não têm respostas simples. Perguntam-me, por exemplo, sobre a colocação de sondas nasogástricas em fases muito avançadas: vale a pena? Vai ajudar ou apenas prolongar sofrimento?

E aqui é preciso ter coragem para falar com verdade e sensibilidade. Em muitos casos, nos dias finais de vida, o corpo já não consegue processar alimentos da mesma forma.

Forçar a alimentação, mesmo por sonda, nem sempre traz conforto. Pode causar desconforto, retenção, infeções ou até mais sofrimento. Nessas fases, a prioridade deixa de ser nutrir o corpo e passa a ser aliviar sintomas e respeitar o ritmo natural do organismo.

Isto não significa abandonar. Significa mudar a forma de cuidar. Hidratar a boca, aliviar dor, posicionar com conforto, estar presente. Significa perceber que cuidar também é saber quando não intervir de forma invasiva.

Essas decisões devem ser sempre tomadas com orientação médica e, sempre que possível, respeitando a vontade do próprio doente. Mas acima e tudo, devem ser guiadas por uma pergunta simples e honesta: isto está a trazer conforto… ou apenas a prolongar um processo inevitável?

Cuidar de alguém no fim de vida não é sobre fazer tudo o que é possível… é sobre fazer o que realmente faz sentido para aquela pessoa.

Nem sempre mais intervenções significam mais cuidado. Ás vezes, significam apenas mais sofrimento. E aceitar isso não é desistir. É um ato de amor maduro, consciente e corajoso.

As famílias não precisam carregar o peso de “salvar” quem já está numa fase final. O papel delas é outro: é estar presente, é dar conforto, é garantir que aquela pessoa não está sozinha, nem com dor, nem com medo.

Se houver uma dúvida constante “estamos a fazer o suficiente?” talvez a pergunta mais certa seja: “Estamos a dar conforto? Estamos a respeitar a dignidade desta pessoa?”

Porque no fim, o que fica não é se houve uma sonda, mais um tratamento ou mais um dia…

O que fica é a forma como aquela pessoa foi cuidada, olhada e acompanhada.

E aqui vai algo importante que pouca gente diz diretamente: vocês não têm de escolher entre amar e deixar partir. É possível fazer os dois ao mesmo tempo.

Permitir um fim digno, sem sofrimento desnecessário, também é uma forma profunda de amor.

A despedida

Muitas famílias evitam a despedida por medo de “acelerar o fim”, de emocionar demais o doente ou por não saberem o que dizer. Mas a verdade, é direta: o não dito costuma pesar mais do que o dito.

Se houver consciência, mesmo que parcial, o doente geralmente sente a presença, o tom de voz, o afeto. E esse momento pode trazer paz. Tanto para quem vai, como para quem fica.

O que dizer?

Não precisa de discursos perfeitos. Precisa de verdade.

Coisas simples que têm um impacto enorme:

  • “Gosto muito de ti”
  • “Obrigado por tudo o que fizeste por mim”
  • “Perdoa-me, se for preciso”
  • “Está tudo bem, podes descansar”

Esta última frase, em particular, muitas vezes é libertadora. Há pessoas que parecem “agarradas” porque sentem que a família ainda não está pronta. Dar permissão para descansar pode trazer uma serenidade profunda.

Muitas pessoas engolem tudo. Os sentimentos, as palavras. Parece que não, mas abrindo-se, neste momento tão delicado e especial, pode as ajudar a seguir em frente com a sua própria vida e a lidar melhor com as suas emoções.

O essencial é isto: Se houver algo importante para dizer, diga. Mesmo com a voz a tremer. Mesmo em poucas palavras.

Porque no fim, a despedida não é só sobre quem parte… é também sobre quem fica a conseguir viver com mais paz depois.

 

 

 

 

O luto da cuidadora de idosos

Hoje penso num luto em específico… o luto da cuidadora de idosos. Não há muitos artigos a falar sobre isso. Talvez porque (ainda) não dão importância. Talvez porque a simples cuidadora tem que apenas seguir em frente. Porque afinal de contas, era mais um utente que cuidamos, não é? Mas, e se não for assim? E se, afinal, aprendemos algo com eles? E se, afinal, um bocadinho, mas nem que seja um bocadinho bem pequenino, de nós, também morre? Um luto, é eterno… jamais apaga a saudade, jamais apaga a nossa aprendizagem com aquele idoso, nem que tivéssemos a cuidar dele por pouco tempo. O que tenho aprendido, é que apesar de termos de normalizar a morte, também aprendemos com ela. Aprendemos, que cada pessoa que cruza nosso caminho, cada pessoa que nós dedicamos a cuidar dela, nos dá qualquer ensinamento. Um deles, é sobre o amor. Ensinam-nos o significado do amor universal. Ensinam-nos a dar nosso amor, carinho, dedicação. Ensinam-nos as histórias de amor, que eles próprios viveram. Cada idoso que cuido, fica sempre num cantinho do meu coração. E quando falecem, um bocadinho pequenino de mim, entra em luto. Afinal, ninguém nos ensinou a ser de ferro. E eu prefiro ser uma pessoa emocional, do que ser de ferro. De vez em quando lembro-me das pessoas que já cuidei e bate aquela nostalgia… saudade! A vida continua… mas o luto…ah o luto! Esse será eterno!