Quando a Coluna Cede: O Desafio dos Desvios Posturais nas Doenças Neurodegenerativas

Cuidar de alguém com uma doença neurodegenerativa como Parkinson, Alzheimer ou Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) , é uma jornada de adaptação constante. Numa fase inicial, a nossa atenção foca-se quase sempre nas falhas de memória, nas alterações de comportamento ou nos tremores. Contudo, à medida que estas condições avançam, o corpo começa a desenhar um novo desafio físico, muitas vezes visível à distância: a coluna começa a desviar-se para o lado ou a inclinar-se severamente para a frente.
Para quem cuida, ver a pessoa querida ficar “torta” ou curvada causa uma enorme angústia. É fundamental compreender que este desvio não é uma teimosia postural nem um problema puramente dos ossos. Você não errou ao sentar o seu familiar na cadeira.
Trata-se do reflexo visível de um cérebro que está a perder a capacidade de controlar os músculos que nos mantêm de pé.
Por que razão o corpo se inclina?
A nossa coluna mantém-se direita graças a um trabalho de equipa perfeito entre o cérebro e os músculos das costas e do abdómen. Nas doenças neurodegenerativas, a “fiação elétrica” que envia as ordens do cérebro para estes músculos começa a falhar.
Isto manifesta-se de três formas principais:
  • Fraqueza muscular assimétrica: Muitas vezes, um dos lados do corpo perde força mais rapidamente do que o outro. Sem o suporte adequado, a gravidade vence e o tronco tomba para o lado mais fraco ou é puxado pelo lado mais forte.
  • Rigidez e espasmos: Em doenças como o Parkinson, os músculos podem tornar-se tão rígidos que forçam o corpo a adotar uma posição curvada (conhecida como camptocormia) ou totalmente inclinada para o lado (chamada Síndrome de Pisa).
    • Perda da perceção corporal: Em fases avançadas de demências (como o Alzheimer), o doente perde a noção tridimensional do próprio corpo e do espaço, inclinando-se sem perceber que está desalinhado.
    • Nos estados avançados do Alzheimer, é muito comum o idoso começar a sentar-se torto, deslizar do sofá ou perder o alinhamento com o corpo. Isso acontece porque  cérebro deixa de coordenar bem a postura, o equilíbrio e a perceção corporal.
      O impacto no dia a dia do doente e do cuidador
      Estes desvios posturais trazem consequências que vão muito além da estética:
      1. Aumento do risco de quedas: Com o corpo inclinado, o centro de gravidade muda. O equilíbrio fica gravemente afetado, tornando o ato de andar ou de se levantar altamente perigoso.
      2. Dificuldade em respirar e comer: O tronco curvado comprime os pulmões e o estômago. Isto pode dificultar a respiração profunda e aumentar o risco de engasgamento durante as refeições.
      3. Dor e isolamento: A postura forçada causa dores musculares contínuas. Além disso, ao não conseguir olhar em frente, o doente tende a isolar-se e a interagir menos com quem o rodeia.
        Como o cuidador pode ajudar? Estratégias Práticas
        Embora nem sempre seja possível corrigir o desvio por completo, o papel do cuidador é vital para garantir o conforto, prevenir lesões e aliviar a dor.
        • Estimule a mudança de posição: Evite que a pessoa passe horas exatamente na mesma posição. Se estiver na cama, faça alternância de lados e use almofadas entre os joelhos para alinhar a coluna.
        • Fisioterapia especializada: A fisioterapia neurológica não procura a postura perfeita, mas sim manter a flexibilidade possível, alongar os músculos encurtados e ensinar transferências seguras da cama para a cadeira.
        • Adapte o ambiente: Se o doente ainda caminha, garanta que os corredores estão livres de tapetes. Instale barras de apoio nas paredes para compensar o desvio do equilíbrio.
        • Ajuste o posicionamento nas cadeiras e sofás: Quando o doente estiver sentado, evite que fique tombado. Utilize almofadas posturais, rolos de espuma ou toalhas enroladas nas laterais do tronco para dar suporte. Manter os pés bem apoiados no chão ou num suporte é crucial para estabilizar a bacia.
        • Conclusão: O foco é a dignidade
          Diante de doenças neurodegenerativas, o objetivo do tratamento da coluna não é a simetria perfeita que vemos num raio-X. O verdadeiro sucesso mede-se pelo bem-estar. Garantir que o seu familiar está sentado confortavelmente, sem dores, capaz de respirar livremente e de olhar nos olhos de quem ama é o maior ato de cuidado e dignidade que lhe pode oferecer.
          Se notar que o desvio da coluna do seu familiar está a progredir rapidamente ou a causar desconforto, converse com o neurologista ou com um médico fisiatra para reajustar o plano de reabilitação.

Demência causada pelo consumo excessivo de álcool-Síndrome de Wernicke-Korsakoff

As demências são doenças que afetam o cérebro, causando perda gradual da memória, do raciocínio, da linguagem, do comportamento e da autonomia. Muitas pessoas pensam que existe apenas o Alzheimer, mas na verdade existem vários tipos de demência, cada uma com características diferentes.

A mais conhecida é a Doença de Alzheimer, que começa geralmente com esquecimentos, dificuldade em aprender informações novas e desorientação. Com o avanço da doença, a pessoa pode deixar de reconhecer familiares, perder a capacidade de comunicar e necessitar de ajuda total.

Existe também a Demência Vascular causada por pequenos AVCs ou alterações na circulação sanguínea do cérebro. Pode provocar dificuldades de atenção, lentidão mental, alterações de humor e problemas de mobilidade.

A Demência com Corpos de Lewy mistura sintomas de demência com características semelhantes ao Parkinson, como tremores, rigidez e alucinações visuais muito frequentes.

Já a Demência Frontotemporal costuma atingir pessoas mais jovens e altera sobretudo a personalidade, o comportamento e a linguagem. Muitas vezes a família nota primeiro mudanças emocionais e sociais antes dos esquecimentos.

Outra forma menos falada, mas muito importante, é a demência causada pelo consumo excessivo de álcool. O abuso prolongado do álcool pode danificar o cérebro, provocar défice de vitamina B1 e levar a dificuldades graves de memória, confusão mental, alterações de comportamento e perda de autonomia. Em alguns casos surge a chamada Síndrome de Werncike-Korsakoff, considerada uma forma de demência associada ao alcoolismo crónico.

Esta demência associada ao consumo excessivo de álcool é uma condição séria e muitas vezes pouco compreendida. O álcool, quando consumido durante muitos anos em grandes quantidades, pode provocar  danos permanentes no cérebro, afetando a memória ,o raciocínio, o comportamento e a capacidade da pessoa cuidar de si própria.

Muitas pessoas acreditam que  álcool prejudica apenas o fígado, mas o cérebro também sofre bastante.

Esta Síndrome pode começar com sintomas como:

  1. Confusão mental
  2. Dificuldades de equilíbrio
  3. Olhar perdido ou movimentos anormais dos olhos
  4. Esquecimentos frequentes
  5. Dificuldades em aprender informações novas

Além da memória,  comportamento também muda. Algumas pessoas tornam-se mais irritadas, impulsivas, desconfiadas ou emocionalmente instáveis. Outras perdem iniciativa, higiene pessoal e capacidade de organização.

Diferente de algumas demências neurodegenerativas, a demência alcoólica pode estabilizar ou melhorar parcialmente se o consumo de álcool for interrompido cedo e houver tratamento adequado, alimentação correta e suplementação vitamínica. Porém, quando os danos já são extensos, parte das alterações pode tornar-se permanente.

Por isso, o alcoolismo não deve ser visto apenas como um vício ou falta de força  vontade. Em muitos casos, trata-se de uma doença que acaba por afetar profundamente o cérebro, a personalidade e a autonomia da pessoa.

 

 

 

A doença de Parkinson

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta principalmente os movimentos, mas também pode impactar emoções, sono, memória e autonomia ao longo do tempo. Surge devido à perda de células cerebrais responsáveis pela produção de dopamina, uma substância essencial para o controlo dos movimentos.

Os sinais mais conhecidos são o tremor em repouso, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e alterações no equilíbrio. No entanto, muitos sintomas começam antes mesmo dos tremores, como perda do olfato, alterações do sono, ansiedade, depressão e cansaço constante.

Cada pessoa vive o Parkinson de forma diferente. Algumas mantêm autonomia durante muitos anos, enquanto outras evoluem mais rapidamente.

O acompanhamento médico, fisioterapia ocupacional e apoio emocional fazem uma grande diferença na qualidade de vida.

Mais do que olhar apenas para a doença, é importante olhar para a pessoa. O Parkinson não apaga a identidade, a história e os sentimentos e quem o vive.

A demência de Parkinson

A demência associada à doença de Parkinson, pode surgir em fases mais avançadas da doença. Além das dificuldades motoras, começam a aparecer alterações cognitivas que afetam a memória, atenção, raciocínio, orientação e capacidade de realizar tarefas do dia a dia.

A pessoa pode apresentar maior lentidão mental, dificuldades em encontrar palavras, confusão, alterações de humor, alucinações visuais e mudanças de comportamento. Muitas vezes estes sintomas causam sofrimento tanto para o doente quanto para a família, porque a personalidade e a independência começam a ser afetadas.

É importante compreender que a demência de Parkinson não é “teimosia” nem “falta de vontade”. Trata-se de alterações reais no cérebro, que exigem paciência, adaptação e muito apoio emocional.

O carinho, a comunicação calma, as rotinas simples e um ambiente seguro ajudam a reduzir a ansiedade e a dar mais conforto à pessoa. Cuidar de alguém com demência também exige cuidar de quem cuida, porque o desgaste físico e emocional pode ser muito grande.

E o que se passa no cérebro, principalmente com a diminuição da dopamina?

A diminuição de dopamina pode contribuir para sintomas de depressão, apatia, perda de motivação e prazer.

A dopamina está muito ligada ao sistema de recompensa do cérebro, ou seja, à sensação de motivação, interesse, energia e satisfação.

Na doença de Parkinson, a perda de neurónios na substância negra reduz a doamina, e isso não afeta apenas os movimentos. Também pode afetar:

  • Humor
  • Motivação
  • Capacidade de sentir prazer
  • Energia mental
  • Interesse pelas atividades
  • Concentração

Por isso, muitas pessoas desenvolvem:

  • Depressão
  • ansiedade
  • apatia emocional
  • isolamento social

A depressão no Parkinson não é apenas uma reação psicológica ao diagnóstico. Muitas vezes faz parte da própria alteração química do cérebro causada pela doença.

O que são doenças neurodegenerativas?

Doenças neurodegenerativas são condições em que o cérebro e/ou sistema nervoso vão perdendo, de forma progressiva, a sua capacidade de funcionar. Isto acontece porque os neurónios (as células nervosas) se deterioram e acabam por morrer ao longo do tempo.

Ao contrário de  problemas passageiros, estas doenças evoluem lentamente e afetam áreas importantes como a memória, o movimento, a linguagem e o comportamento. Por isso, os sintomas tendem a piorar com o tempo.

Alguns exemplos conhecidos incluem a Doença de Alzheimer, a Doença de Parkinson e a Esclerose Lateral Amiotrófica.

Cada uma destas doenças afeta o corpo e forma diferente, mas todas têm algo em comum: são crónicas, progressivas e, atualmente, não têm cura. No entanto, existem tratamentos e cuidados que ajudam a controlar os sintomas e a melhorar a qualidade de vida da pessoa.

Na prática, quem cuida de alguém com uma doença neurodegenerativa sabe que não se trata apenas de uma doença física. Há também um impacto emocional, cognitivo e social, tanto para o doente como para a família. Por isso, o acompanhamento deve ser feito com paciência, empatia e adaptação constante ás necessidades da pessoa.

Qual a diferença entre a doença neurodegenerativa e Défice Cognitivo Ligeiro?

A diferença é importante, e muitas pessoas confundem.

As doenças neurodegenerativas são doenças progressivas e irreversíveis.

Isto significa que há uma destruição contínua dos neurónios, e a pessoa vai perdendo capacidades ao longo do tempo (memória, autonomia, linguagem, movimentos, dependendo da doença).

Já o Défice Cognitivo ligeiro é diferente. É uma fase intermédia entre o envelhecimento normal e uma demência.

  • A pessoa tem falhas de memória ou atenção, mas ainda consegue viver de forma relativamente independente.
  • Não é necessariamente uma doença neurodegenerativa, embora possa ser um sinal inicial de uma
  • Nem sempre evolui. Algumas pessoas mantêm-se estáveis ou até melhoram

 

 

Quando engolir se torna difícil: A disfagia nas demências

È hora de almoço. O seu familiar com demência senta-se á mesa e começa a comer, ao seu ritmo. Mas, começa a ter um comportamento incompreensível: começa a cuspir pedaços do comer. Pedaços de pão, cascas, verduras… e claro, você acha um absurdo isso acontecer. Seu familiar adorava pão com queijo, adorava um bom bife com batatas fritas e arroz. Agora, começa a cuspir pedaços de arroz e tira os pedaços de carne da boca. Porque razão agora não come direito?

Não é teimosia, ele não está a fazer de propósito. Ele não está a gozar consigo. Apenas está a ter mais dificuldade em engolir

A disfagia (dificuldade em engolir) é muito comum nas demências. E não aparece “do nada”. Ela acontece porque o cérebro deixa de conseguir coordenar um processo que, apesar de ser simples, é altamente complexo.

Engolir, envolve várias etapas: mastigar, formar o bolo alimentar, controlar a língua, fechar corretamente a via respiratória e empurrar o alimento até ao estômago. Tudo isso depende de áreas do cérebro que vão sendo afetadas pela demência. Quando o seu familiar cospe pedaços de comida, ele pode já ter alguma dificuldade em mastigar ou acha que já não consegue engolir direito aquele alimento. Este problema também pode ser algum problema dentário. (Dente a doer ou placa larga ou a incomodar)

Com a progressão da doença, a pessoa pode:

  • Esquecer-se de como mastigar e engolir
  • Perder força nos músculos da boca e garganta
  • Engasgar-se com facilidade
  • Ter alimentos ou líquidos a “irem para o sítio errado” (pulmões), aumentando o risco de pneumonia.

Porque isto é perigoso?

Porque pode levar a desnutrição, desidratação e, principalmente, aspiração, que é quando a comida ou líquidos entram nas vias respiratórias.

O que fazer na prática:

Adaptar a consistência dos alimentos

  • Preferir alimentos macios, triturados ou em puré
  • Evitar alimentos secos, duros ou que se desfazem facilmente (ex: bolachas, arroz solto)
  • Usar espessantes nos líquidos, se necessário

Posição correta

  • A pessoa deve estar sentada, com o tronco direito (nunca deitada)
  • Manter essa posição pelo menos 20-30 minutos após a refeição

Ritmo e ambiente

  • Dar pequenas quantidades
  • Não apressar
  • Evitar distrações(TV, muito barulho)
  • Incentivar, mas sem forçar

Observação constante

  • Tosse durante ou após comer
  • Voz “molhada” ou alterada
  • Comida a ficar na boca
  • Recusa alimentar. Se aparecerem estes sinais, é preciso atenção imediata.

Quando existe disfagia, a tendência é facilitar: dar só sopas, papas ou purés. O problema é que, muitas vezes esses alimentos são pobres em nutrientes. Resultado? A pessoa até “come”, mas começa a perder peso, força e imunidade.

Na demência, isso é ainda mais grave: o corpo já está fragilizado, e a desnutrição acelera o declínio.

O objetivo não é só conseguir engolir. È nutrir de verdade.

  1. Proteína em todas as refeições. Essencial para manter massa muscular e evitar fraqueza. (Carne ou peixe triturados. Ovos, iogurte, queijo cremoso)
  2. Calorias suficientes. Se a pessoa come pouco, cada colher tem que contar. (azeite nos purés, abacate, manteiga de amendoim)
  3. Vitaminas e minerais. (Sopa com legumes variados. Fruta triturada ou cozida)

Dar comidas comidas “leves” pode parecer cuidado… mas a longo prazo, é negligência nutricional sem intenção.