È hora de almoço. O seu familiar com demência senta-se á mesa e começa a comer, ao seu ritmo. Mas, começa a ter um comportamento incompreensível: começa a cuspir pedaços do comer. Pedaços de pão, cascas, verduras… e claro, você acha um absurdo isso acontecer. Seu familiar adorava pão com queijo, adorava um bom bife com batatas fritas e arroz. Agora, começa a cuspir pedaços de arroz e tira os pedaços de carne da boca. Porque razão agora não come direito?
Não é teimosia, ele não está a fazer de propósito. Ele não está a gozar consigo. Apenas está a ter mais dificuldade em engolir
A disfagia (dificuldade em engolir) é muito comum nas demências. E não aparece “do nada”. Ela acontece porque o cérebro deixa de conseguir coordenar um processo que, apesar de ser simples, é altamente complexo.
Engolir, envolve várias etapas: mastigar, formar o bolo alimentar, controlar a língua, fechar corretamente a via respiratória e empurrar o alimento até ao estômago. Tudo isso depende de áreas do cérebro que vão sendo afetadas pela demência. Quando o seu familiar cospe pedaços de comida, ele pode já ter alguma dificuldade em mastigar ou acha que já não consegue engolir direito aquele alimento. Este problema também pode ser algum problema dentário. (Dente a doer ou placa larga ou a incomodar)
Com a progressão da doença, a pessoa pode:
- Esquecer-se de como mastigar e engolir
- Perder força nos músculos da boca e garganta
- Engasgar-se com facilidade
- Ter alimentos ou líquidos a “irem para o sítio errado” (pulmões), aumentando o risco de pneumonia.
Porque isto é perigoso?
Porque pode levar a desnutrição, desidratação e, principalmente, aspiração, que é quando a comida ou líquidos entram nas vias respiratórias.
O que fazer na prática:
Adaptar a consistência dos alimentos
- Preferir alimentos macios, triturados ou em puré
- Evitar alimentos secos, duros ou que se desfazem facilmente (ex: bolachas, arroz solto)
- Usar espessantes nos líquidos, se necessário
Posição correta
- A pessoa deve estar sentada, com o tronco direito (nunca deitada)
- Manter essa posição pelo menos 20-30 minutos após a refeição
Ritmo e ambiente
- Dar pequenas quantidades
- Não apressar
- Evitar distrações(TV, muito barulho)
- Incentivar, mas sem forçar
Observação constante
- Tosse durante ou após comer
- Voz “molhada” ou alterada
- Comida a ficar na boca
- Recusa alimentar. Se aparecerem estes sinais, é preciso atenção imediata.
Quando existe disfagia, a tendência é facilitar: dar só sopas, papas ou purés. O problema é que, muitas vezes esses alimentos são pobres em nutrientes. Resultado? A pessoa até “come”, mas começa a perder peso, força e imunidade.
Na demência, isso é ainda mais grave: o corpo já está fragilizado, e a desnutrição acelera o declínio.
O objetivo não é só conseguir engolir. È nutrir de verdade.
- Proteína em todas as refeições. Essencial para manter massa muscular e evitar fraqueza. (Carne ou peixe triturados. Ovos, iogurte, queijo cremoso)
- Calorias suficientes. Se a pessoa come pouco, cada colher tem que contar. (azeite nos purés, abacate, manteiga de amendoim)
- Vitaminas e minerais. (Sopa com legumes variados. Fruta triturada ou cozida)
Dar comidas comidas “leves” pode parecer cuidado… mas a longo prazo, é negligência nutricional sem intenção.

