Fazer tudo pelo idoso: amor ou necessidade de controlo?

Você fez o almoço e o seu familiar prepara-se para ajudar-lhe a lavar a loiça. Ao perceber aquele gesto, você pensa logo: “A loiça vai ficar mal lavada e ele é capaz de partir algum copo! Melhor ser eu a fazer!” E sem hesitar, diz logo que ele está incapacitado para fazer tal tarefa e que é melhor ele se sentar o sofá.

Cuidar de um idoso não é fazer fazer tudo por ele .É ajudá-lo a continuar a sentir-se útil, capaz e humano.

Muitas vezes, por pressa ou carinho, dizemos logo: “Deixe, você não consegue. Eu faço.”

Mas cada pequena tarefa que retiramos, pode também retirar autonomia, autoestima e vontade de lutar.

Mesmo com limitações, o idoso precisa de estímulo diário. Dobrar uma roupa, segurar uma colher, pentear o cabelo, regar uma planta, escolher a roupa do dia… tudo isso mantém o cérebro ativo, preserva movimentos e fortalece a dignidade.

Fazer por eles, é importante. Mas deixar que façam o que ainda conseguem, é também uma forma profunda de amor e cuidado.

Existe uma diferença entre cuidar e substituir completamente o idoso, como se estivéssemos a anular, como pessoa.

Quando fazemos tudo pelo idoso o tempo inteiro (isto é válido também para pessoas com transtornos mentais e outras doenças) sem dar oportunidade de tentar, acabamos por acelerar perdas que poderiam ser mais lentas. O corpo desacostuma-se do movimento. A mente desacostuma-se de decidir, pensar e participar.

Muitas pessoas deixam de fazer não porque perderam totalmente a capacidade, mas porque ouviram tantas vezes “Não consegue”, que começam a acreditar nisso.

O estímulo diário é uma forma de manter a identidade da pessoa viva. Dar tempo para que ela tente vestir-se, incentivar a pegar no copo, conversar durante as tarefas, pedir pequenas opiniões… tudo isso trabalha o cérebro, a coordenação, a memória e também a emocional.

Claro que há momentos em que precisam de ajuda total. Mas mesmo nesses casos, ainda podemos incluir a pessoa no cuidado: “Quer esta camisola ou aquela?” “Consegue segurar isto para mim?”

Pequenos gestos fazem logo uma diferença. O familiar não precisa apenas de higiene, medicação e alimentação. Precisa sentir que ainda participa na própria vida.

E o que dizer sobre a pessoa que cuida? 

Nem sempre a pessoa que faz tudo pela pessoa é má cuidadora.

Muitas vezes faz por amor, pressa, ansiedade ou medo de ver o familiar falhar, cair ou sofrer.

Mas existe também um lado psicológico importante nisso.

Algumas pessoas têm dificuldade em permitir que o outro mantenha autonomia, porque sentem necessidade de controlar tudo á volta.

Há cuidadores que, inconscientemente sentem valor pessoal quando são indispensáveis. Quanto mais o outro depende deles, mais sentem que têm um papel, uma missão ou importância emocional. E isso pode acontecer sobretudo em pessoas emocionalmente carentes, muito ansiosas ou com sensação de vazio interior.

Também existe o medo do julgamento: “Se ele demora, faz mal feito ou cai, vão achar que eu não cuidei bem.”

Então,  cuidador acelera tudo, faz tudo sozinho e retira ao familiar a oportunidade de participar.

O problema é que, sem perceber, pode transformar cuidado em excesso de dependência.

Por detrás de um cuidador muito controlador, muitas vezes existem feridas emocionais, medos e padrões antigos que quase ninguém vê.

Alguns cresceram em ambientes onde errar não era permitido. Então desenvolveram necessidade de controlar tudo para se sentirem seguros.

Outros viveram abandono emocional, falta de reconhecimento ou solidão profunda.

E também á quem tenha ansiedade elevada. Ver o familiar a demorar, tremer, deixar cair algo, gera desconforto interno.

Então o cuidador interfere imediatamente para aliviar a própria ansiedade.

Muitas pessoas confundem amor com sacrifício total. Foram ensinadas desde cedo que cuidar é dar conta de tudo.

Em alguns casos, o cuidador carrega culpa: “Tenho de fazer tudo perfeito, se acontecer algo, a culpa será minha.”

Também existem cuidadores emocionalmente esgotados. Quando estão cansados, sem apoio e sobrecarregados deixam de ter paciência para esperar o tempo do idoso. Fazer sozinho torna-se mais rápido e menos desgastante.

Cuidar não é dominar a vida do outro. É apoiar sem apagar a capacidade que ainda existe.

O melhor cuidador não é aquele que faz tudo. É aquele que sabe ajudar sem retirar dignidade, escolha e autonomia.

Compreender a ansiedade

“O mal do século” Esta e entre outras frases, costumam definir a ansiedade.

Mas, sabia que a ansiedade até um certo ponto, é uma aliada do ser humano?

Este sentimento está presente na nossa vida, justamente para que o Ser Humano sobreviva aos perigos de cada período seja ao proteger-se de predadores mortais como na pré-história ou, numa situação mais atual,  ao evitar ser-se assaltado ou atropelado, para assim ajudar a enfrentar situações de ameaça.

Para compreender melhor a ansiedade e a sua importância no nosso dia a dia, é interessante imaginar como seria a vida sem este sentimento. Desde situações mais inocentes, desde aquele frio na barriga, que deixa um momento inédito mais especial, áquelas que despertam a nossa atenção para perigo, como fugir de um carro em andamento ou de um cão enraivecido na rua.

Ou seja, é um recurso nato do ser humano que acaba por impulsionar pessoas a progredirem, dia após dia; sem isto, elas ficam desmotivadas.

As reações ansiosas, que envolvem hormonas e neurotransmissores no cérebro e no resto do corpo, despertam comportamentos que já estão pré-programados em  cada pessoa, mas que precisam deste empurrão para serem ativados.

É como uma vivência do universo do medo direcionada para o futuro, com variados tons e expectativa, angústia e agitação.

Isto resulta em manifestações físicas, psíquicas e comportamentais. Entre elas, a inquietação, um aperto no peito, e uma sensação que algo grave irá acontecer.

Segundo os especialistas, os reflexos da ansiedade pelo corpo, auxiliam na nossa sobrevivência em situações ameaçadoras.

Por um lado, a ansiedade aparenta ter um aspeto positivo para o ser humano.

Mas, como tudo o que é exagerado, acaba por atrapalhar mais, do que nos ajudar.

Esta reação também tem a capacidade de prejudicar e acabar por evoluir para um Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

Ou, outros derivados dos mesmos sintomas (fobias, síndrome do pânico, etc).

Como funciona o cérebro ansioso?

A relação entre o cérebro e ansiedade, ocorre metaforicamente da mesma forma que o fogo e o álcool.  Representados pela Adrenalina (Neurotransmissor que estimula as reações do  corpo ao stress) e o nosso organismo.

Esta adrenalina precisa ser queimada,  que causa ações diferentes em cada parte do nosso corpo. Pode provocar tonturas, taquicardia, boca seca, dificuldade respiratória, tremores, frio na barriga, inquietação, visão turva, arrepios, sensação de queda, e sensação que vai morrer na hora).

Para além da Adrenalina, a disfunção da Serotonina (regula o sono e o humor)  Dopamina ( proporciona sensações de recompensa) também é uma característica marcante dos quadros de ansiedade.

A ansiedade afeta o cérebro, ativando de forma excessiva a amígdala,  nosso “Centro de alarme” enquanto a comunicação com o córtex pré-frontal responsável pelo raciocínio e controle, fica comprometida.

O dia a dia acelerado

Uma simples frase como “Preciso falar contigo”, pode já soar o alarme no cérebro ansioso. A Partir do momento que ouvem essa frase, a mente é inundada por vários pensamentos. “Será que fiz algo de mal?”, “Será que vão acabar o nosso namoro?” “Será que fui despedido do trabalho?”

Tudo isto resume-se a uma frase: A ansiedade é  excesso de futuro.

Ás vezes, a maioria desses pensamentos e filmes, nem chegam de facto a acontecer. E isto acaba por gerar stress, medo e ansiedade.

Na era atual de informação, o uso de tecnologias acabou por facilitar a nossa vida, de uma forma mais rápida e prática. Com esta facilidade, muitas pessoas pensam que podem fazer tudo mais rápido e assumir outras coisas, antes de ter finalizado as anteriores .E aqui está o perigo. A ansiedade é um transtorno que faz com que a pessoa sinta uma total sensação de impotência em relação ao seu tempo e como administrar os seus afazeres quotidianos.

Esta acumulação de funções, faz com que a pessoa perca o sentido de prioridade. E as vezes, com a pressa ela compromete a eficácia das tarefas.

E isto faz com que a pessoa sinta-se frustrada. Como se não fosse capaz ou que não seja suficientemente boa.

Acalmar uma mente ansiosa não é sobre “parar de pensar” mas sim sobre mudar a forma como você se relaciona com esses pensamentos. Quando o volume das preocupações aumenta, o segredo é trazer o foco de volta para o momento presente e para o corpo.

Aqui estão algumas estratégias práticas e eficazes para encontrar o equilíbrio.:

Técnicas de Aterramento

Quando a mente viaja para o futuro (“e se…?), você precisa trazê-la e volta para o presente. A técnica mais famosa é a 5-4-3-2-1

  • 5 coisas que você pode ver á sua volta
  • 4 coisas que você pode tocar
  • 3 sons que você pode ouvir
  • 2 cheiros que você pode sentir
  • 1 coisa que você pode provar

Controle da respiração

A ansiedade acelera o ritmo cardíaco. Ao controlar a respiração, você envia um sinal ao cérebro de que está seguro.

Inspire por 4 segundos, segure por 4, expire por 4 e mantenha os pulmões vazios por mais 4 segundos.

Repita o ciclo.

Organize o “Caos mental”

Muitas vezes, a ansiedade surge pelo excesso de tarefas ou incertezas acumuladas.

  • Despejo mental: Escreva em um papel tudo o que está lhe preocupando, sem julgamentos. Tira o pensamento da cabeça e colocá-lo no papel reduz a carga cognitiva.

Movimente o corpo

A ansiedade é um excesso de energia (adrenalina e cortisol). Dar um destino físico a essa energia ajuda muito:

  • Uma caminhada curta de 10 minutos
  • Alongar o pescoço e os ombros (onde acumulamos tensão)
  • Sacudir as mãos e os braços para “liberar” o stress acumulado

Nota importante: Se a ansiedade for constante e interferir severamente na sua rotina, buscar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra é o passo mais corajoso e eficaz que você pode dar. Você não precisa carregar tudo sozinho.