Quando de repente o familiar conversa em fase avançada da demência. Nem sempre é bom sinal

O seu familiar em estado avançado de demência, já não fala muito ou então já nem fala.

Mas, sem ninguém esperar, um dia ele começa a falar. Você olha para o familiar, e o seu coração enche de alegria. Cuidado: nem sempre é bom sinal!

Em fases avançadas da demência, quando uma pessoa já não fala há muito tempo ou comunica apenas através do olhar e de pequenas expressões faciais, ouvir repentinamente palavras ou frases pode ser um momento surpreendente para a família e cuidadoras. É natural que surja a esperança de uma melhoria ou de uma recuperação das capacidades perdidas. No entanto, nem sempre esta mudança representa uma evolução positiva do estado da pessoa.

O aparecimento súbito de fala ou de uma maior agitação verbal pode ser uma forma de expressar que algo não está bem.

Muitas vezes, pessoas com demência avançada já não conseguem comunicar claramente a dor, desconforto ou mal-estar. Nesses casos, alterações inesperadas no comportamento podem ser um importante sinal de alerta.

Uma infeção urinária, febre, dor, obstipação, retenção urinária, dificuldade em respirar, efeitos secundários de medicamentos ou até uma simples mudança na rotina podem provocar alterações no estado mental e na forma como a pessoa se expressa.

Lembro-me um caso em específico, eu cuidava de um senhor com Alzheimer e eu ia ficar com ele pela primeira vez no turno da noite. Custou muito ele dormir nessa noite. Estava mais comunicativo, inquieto e estava constantemente a levantar-se da cama. Só conseguiu dormir pelas 5h da manhã, quando ouviu a voz da mulher, que lhe era bem familiar. A minha voz, ele não conhecia, eu era uma estranha. A mulher trouxe conforto e ele conseguiu dormir.

Quando ele estava na fase final da doença, já nem falava, só comunicava aos gritos, quando as enfermeiras alteravam a sua posição da cama (ele já estava acamado). Acredito que ficava assustado e as mudanças de decúbito causavam-lhe alguma dor.

Três semanas antes dele falecer, houve um dia em que ele comunicava bastante comigo. Dizia coisas bem acertadas e conseguíamos manter uma boa conversa. Saí do meu turno, com o coração cheio. Dia seguinte, já não falou mais e o seu estado de saúde foi ficando cada vez mais debilitado.

Algumas pessoas tornam-se mais agitadas, outras chamam repetidamente por familiares, falam frases desconexas ou utilizam palavras que há muito tempo não eram ouvidas.

Outro caso que tive, cuidava de uma senhora com demência mista, falava muito pouco, mas, haviam certas horas do dia em que começava a rezar, a conversar, a ficar ansiosa. Quis investigar. Pensei logo que estaria com algum tipo de dor.

Deitei ela na cama, e procurava por feridas, até que e encontrei a região logo acima do cóccix (a base das costas), vermelha. A razão para isso, era que estava sentada a algum tempo, e já estava a começar a magoar. Mudanças na rotina, almofada especial e colchão anti-escaras, aliviaram as dores e resolveu o problema.

Por isso, sempre que surgir uma mudança repentina na comunicação de uma pessoa com demência avançada, é importante observar com atenção e avaliar possíveis causas físicas ou emocionais.

A demência pode retirar as palavras, mas não elimina as necessidades, os sentimentos ou o desconforto. Quando a fala reaparece de forma inesperada, ela pode ser mais do que uma simples conversa. Pode ser uma forma que a pessoa encontrou para comunicar que precisa de ajuda.

Quando o familiar estiver agitado ou a comunicar mais, verifique alguns sinais:

  • Se tem prisão de ventre (escreva ou aponte num calendário, sempre que evacuar)
  • Se tem alguma dor por estar muito tempo sentado (inquietação na cadeira)
  • Se tem calor (tenta tirar a roupa, apresenta suor ou cara vermelha)
  • Se tem febre
  • Se tem vontade de urinar (inquietação, mãos nas fraldas ou calças)