Um dia, como qualquer outro, estava a prestar cuidados a uma senhora, em estado avançado de Alzheimer e acamada.
Cuidadosamente estava a trocar a fralda da senhora. Algo normal na minha profissão. Mas, parei por uns instantes e olhei para o seu rosto. Estava com a cara ligeiramente inclinada em direção á janela. Um olhar vazio, um olhar triste. Como que estivesse a pensar: “Faz o que tens a fazer, já estou habituada. Afinal, não posso fazer mais nada, não tenho mais autonomia e dependo de ti. Faz o teu trabalho para eu voltar a dormir.”
Algo despertou em mim naquele momento. Nós profissionais de saúde e os familiares cuidadores, já fazemos as coisas automaticamente. E até criámos uma rotina. Mudamos a fralda, fazemos as mudanças de decúbito na cama, damos a medicação. Sem aviso prévio, sem comunicação, sem um sorriso ou sem prestar atenção ao rosto do doente. Como se, ao ter demência, a pessoa deixou de existir, deixou de ter uma identidade, um passado. Passamos a ver aquela pessoa, como alguém que está ao nosso cuidado. Fazemos a higiene pessoal, mudamos a roupa da cama, damos alimentação, e não há uma aproximação mais pessoal. É algo, robótico.
Mas, afinal, aquela pessoa já teve um passado, teve a sua personalidade. Já teve imensas histórias e já foi útil á sociedade. Mas, agora, a pessoa apenas, existe. Nós a acordamos, damos banho, damos alimentação, medicação, e mudamos a fralda, tudo com o seu horário organizado, e a pessoa, apenas obedece.
Como cuidadores, não podemos devolver anos de vida ou a saúde do utente, mas podemos dar vida aos anos que restam.
Um toque com carinho, uma conversa, uma música, um sorriso ou simplesmente segurar uma mão podem fazer a diferença. Mesmo que a pessoa já não tenha capacidade de falar, ela está a sentir.
Uma música que relembre a sua infância, ou outro momento especial do utente, pode devolver um brilho, no seu olhar vazio.
Um sorriso, uma pequena conversa, um olhar fixo, pode fazer diferença.
Por detrás de cada olhar distante, existe uma história que merece ser lembrada.
